Shorinji Kempo


A Fundação do Shorinji Kempo

A trinta e seis quilómetros a oeste da cidade de Takamatsu, em Shikoku, encontra-se a cidade de Tadotsu, com uma população de 20 mil habitantes. Após a derrota na II Guerra Mundial, Shike Doshin So, o Fundador ("Kaiso") regressou da China, e a 25 de Outubro de 1947 fundou o Shorinji Kempo, em Tadotsu.

 

“A pessoa, a pessoa! Tudo depende da qualidade da pessoa”

A 9 de Agosto de 1945, Kaiso estava na Manchúria Oriental, na aldeia chinesa de Anyang, quando o exército russo quebrou o tratado com o Japão e atravessou a fronteira da Manchúria.

A 15 de Agosto, a guerra acabou com a derrota do Japão. Durante o ano seguinte Kaiso viveu na Manchúria sob ocupação do exército russo. Aí, viveu a miséria e o sofrimento da derrota em terra estrangeira, onde os interesses das nações estavam acima da ideologia, religião e moral.

Países lutaram contra países e a vitória foi para aquele que tinha mais capacidade de matar e derrotar os outros. Era um mundo no qual estes actos poderiam fazer sentido; e os japoneses, derrotados na Manchúria, estavam do lado errado desta regra.

No meio dessa amarga realidade Kaiso aprendeu uma lição que o ajudou a construir os princípios do Shorinji Kempo; Compreendeu que não eram as diferenças ideológicas e religiosas ou as políticas nacionais, que determinavam o rumo dos acontecimentos, mas sim o carácter e maneira de pensar das pessoas envolvidas.

Dando palavra aos seus pensamentos Kaiso disse: “A pessoa, a pessoa! Tudo depende da qualidade da pessoa". Se o rumo dos acontecimentos humanos dependem inteiramente das acções das pessoas, então, para estabelecer a paz que todos há muito esperamos, o único caminho a seguir, é desenvolver o maior número possível de pessoas com compaixão, coragem e sentido de justiça.”

 

Dar resposta ao desespero de guerra que despedaçou o Japão

Kaiso, em Junho de 1946, e apesar das pressões dos amigos chineses, que desejavam que ele ficasse, regressou, por fim, ao seu amado Japão. Apesar de ter sonhado com o seu regresso à terra natal, o que encontrou não condizia com nenhum dos seus sonhos.

Por entre o caos que se seguiu à derrota completa, Kaiso encontrou um mundo no qual as pessoas esqueceram a moralidade e a compaixão, que eram o essencial das suas memórias queridas do Japão. Era um mundo em que cada um lutava para seu próprio proveito, e em que se preferia ignorar o sofrimento dos outros. Era como se Kaiso tivesse deixado uma família sólida, quando partiu para a China, e regressasse para encontrar, irmãos e irmãs, lutando uns contra os outros. A injustiça e a violência prevaleceram como se a moralidade, a lei e ordem, nunca tivessem existido. A maior parte da juventude do país esqueceu, ou desistiu, dos seus sonhos e esperanças no futuro e tentava esconder-se num mundo de prazeres e recompensas fúteis. Era um mundo no qual as pessoas se tinham esquecido de ter em conta os outros e do que significava a ajuda mútua. Um mundo em que o futuro traria consigo apenas ameaças e não esperança para os jovens.

Kaiso decidiu fazer tudo o que lhe fosse possível para reconstruir as bases da nação e ensinar à juventude o que o futuro poderia oferecer, e para restabelecer a credibilidade dos japoneses aos olhos do mundo. Nas suas próprias palavras: “Com vista à restauração do meu país vou devotar o resto da minha vida a treinar jovens possuidores de coragem, misericórdia e sentido de justiça”. Na cidade de Tadotsu fundou um dojo onde ensinou às pessoas como viver de acordo com o seu potencial, tendo por base a filosofia ensinada por Buda.

Mas, como as prelecções e teorias abstractas não eram suficientes para mudar a mente das pessoas, Kaiso respondeu ao desafio ensinando as técnicas derivadas de Arahan no Ken, as quais praticou e em que se tornou perito, durante a sua juventude na China. Estas técnicas, que Kaiso trouxe da China, foram o ponto de partida do Shorinji Kempo, requerendo disciplina e capacidade de trabalho com os outros. Tendo como base estes princípios podemos atingir uma plena realização física e espiritual e, através desta, podem construir-se as bases de uma sociedade pacífica.

Kaiso não ensinou às pessoas apenas as habilidade do Kempo, mas usou também o treino e o seu papel enquanto professor para ensinar uma forma de auto-desenvolvimento, baseada nos ensinamentos de Buda, propondo a evolução através do auto-questionamento. Assim, delineou  uma forma das pessoas aprenderem a ter confiança e cooperarem mutuamente, tentando alcançar a essência de uma sociedade pacífica e próspera, onde já tinha havido guerra, fome e onde dominara a lei do mais forte.

 

A base do Shorinji Kempo (defesa pessoal, desenvolvimento espiritual, e corpo saudável)

A arte que Kaiso estudou na China era conhecida como ken (punho) de Kita Shorin Giwamon, que era inicialmente uma arte marcial e um método de treino inserido nos ensinamentos de Buda. Não foi estruturado com o objectivo de lutar ou derrotar o outro, mas como um processo de aprendermos a ter autocontrole, equilíbrio físico e mental, e de crescimento mútuo através do treino. O Shorinji Kempo recuperou esta tradição e defende que as três principais vantagens que o Kenshi retira da prática são: habilidade em defesa pessoal, desenvolvimento espiritual, e um corpo saudável.

Kaiso ensinou Arahan no Ken aos jovens que se reuniam no seu dojo e dessa forma transmitiu-lhes a experiência necessária para enfrentarem os desafios diários da vida, sem nunca desistirem dos seus valores e sonhos. Kaiso apercebeu-se que através do treino mental e físico, do Arahan no Ken, os jovens podiam conseguir autoconfiança e coragem, bem como um corpo forte e saudável. Criou um método de ensino através da prática do ken zen ichinyo (corpo e mente são um só) e da atenção que deve ser dada ao equilíbrio do riki ai funi (força e compaixão não estão separadas). O Shorinji Kempo é o seu método de treino. Aproveitando o nome Kongo Shin da denominação Zen para os Nioson (os reis Deva que deram origem à arte do Arahan no Ken na antiga Índia) Kaiso deu ao seu método de ensino o nome de Kongo Zen.

Foi assim que o Shorinji Kempo começou no Japão.

Hoje, essas técnicas e a filosofia são praticadas por jovens de muitos países, que trabalham em conjunto para desenvolver o Shorinji Kempo em todo o mundo.

 

A Essência do Shorinji Kempo

Vivam metade para vocês e metade para os outros. Aprendam como e porquê

O Shorinji Kempo é uma disciplina que treina a mente e o corpo. O seu método e princípios são supervisionados pela organização denominada Kongo Zen Sohonzan Shorinji. A forma básica de pensar para além destes princípios deve ser compreendida de início por cada Kenshi.


O treino principal do Kongo Zen, o Shorinji Kempo, está especialmente organizado para ajudar em três áreas da vida: defesa pessoal, desenvolvimento espiritual, e melhoramento da saúde. E um método eficaz de defesa pessoal, mas, também as armas de guerra o são. No entanto, não treinamos o seu uso. A essência do Shorinji Kempo vai para além dos limites da defesa pessoal.


O Shorinji Kempo inicia-se com a constatação de que cada ser humano tanto enfrenta dificuldades e problemas, bem como goza de sorte e felicidade. Por muito que gostássemos de lidar com cada desafio e oportunidade, com habilidade e juízo perfeito, não sabemos como será  o dia de amanhã, e enfrentamos cada dia com, nem mais nem menos, que as habilidades e a energia que temos. Assim, a abordagem que o Kongo Zen faz da vida não é a de fazer coisas perfeitas, mas sim de fazer cada acção com todo o coração e viver cada momento na sua plenitude. Embora este ideal seja simples, não é fácil atingir. Iremos necessitar de um corpo saudável, de um espírito forte, de uma personalidade equilibrada, sentido de compaixão e habilidade para actuar de forma determinante.


O Shorinji Kempo procura desenvolver pessoas que ajudarão os outros. As qualidades que ajudarão a atingir isso com todo o coração, serão a coragem, a motivação, a inteligência, e sentido do que é correcto. Foi por isto que o Shorinji Kempo foi concebido. Para vos ajudar a desenvolver estas qualidades em cada um. Mas, mesmo para um principiante sem treino, a essência do Shorinji Kempo consiste em empenhar-se com toda a energia, coragem, inteligência e outras qualidades que possua, ajudando a construir uma sociedade que valorizasse todos os seus membros.


Dos Kenshi espera-se que não utilizem o Shorinji Kempo para mostrar a sua força ou para lutarem com outros sem razão. Mesmo que sejam forçados a usar o Shorinji Kempo como defesa pessoal, é absolutamente proibido que parta de vocês o primeiro ataque. No Shorinji Kempo treinamos para defender.

 

 

A Essência do Budo

O significado da palavra Bu

O carácter chinês para bu que observamos na palavra “budo” (a via marcial) é um ideograma composto por três partes que significam “dois”, “lança”, e “parar”. Ou seja, “parar duas lanças”. O significado original da palavra bu não é lutar, derrotar, ou matar um inimigo, mas parar o combate entre as pessoas, permitindo deste modo o trabalho conjunto e em harmonia, criando uma cultura pacífica. As artes marciais deverão desempenhar um papel moralizador na sociedade.

 

O Bu como via para o desenvolvimento do carácter

O Shorinji Kempo que praticamos diariamente pode ser dividido em diferentes partes.

O Gi consiste em técnicas de ataque e de defesa. O Jutsu consiste na sua aplicação, e o Ryaku organiza a forma como elas são aplicadas. No seu conjunto, estas habilidades são conhecidas como “bu no tai” (o corpo de bu). Ao praticarmos estas artes, não só treinamos como pessoas mas também aprendemos uma forma de eliminar o mal da nossa comunidade local e os princípios para estabelecer a diferença à escala de uma comunidade maior e internacional. Tal é conhecido como “bu no yo”, ou a aplicação e missão do bu.

O budo é o caminho que une o "bu no tai e o "bu no yo". Ele possibilita às pessoas ganharem a coragem e força necessárias à defesa pessoal. Ao mesmo tempo, desenvolve pessoas que podem usar esta forca, coragem, e habilidade para agir para melhorarem e a beneficiarem a sociedade em geral.

A essência do budo não passa por derrotar os outros ou satisfazer ambições pessoais de vitória. Pelo contrário, é um caminho através do qual podemos vencer as nossas próprias fraquezas, criarmos uma verdadeira autoconfiança, e aprendermos a viver e crescer com os outros.

Através do budo podemos apoiar os outros, e recebermos, nós próprios, apoio. É uma forma de procurarmos construir uma sociedade ideal, para a nossa felicidade e para a dos outros.

 

Ideias erradas do budo

Muitas artes marciais que se intitulam de budo, demonstram desconhecimento pelo verdadeiro significado da palavra. Em geral, estas artes preocupam-se principalmente em treinar técnicas para vencer competições, em ter práticas forçadas durante o treino, ou em actuações extraordinariamente exibicionistas para impressionar os outros. Quando as pessoas envolvidas nestes tipos de budo falam das suas artes, quase sempre discutem sobre competições, e comparam forças, dando apenas valor às técnicas que são úteis para lutar ou vencer. Dessa forma, a sua prática é direccionada para o objectivo obsessivo de vitória. Estas pessoas apenas demonstram respeito para com aqueles que são capazes de demonstrar uma força superior, e fazem deste princípio um ideal de vida.

No entanto, e como é visível pelos resultados de tais deturpados pensamentos e treinos, qualquer arte que se intitule de budo e que treine pessoas com vista à sua demonstração de superioridade em competições acaba por produzir maus resultados. Os estudantes que sigam estes métodos errados tornam-se habitualmente insolentes, brutos, egoístas e problemáticos para com os outros. Os professores destes infelizes estudantes apenas se aproveitam da utilização do nome budo para esconder os falsos objectivos das suas práticas.

 

O valor das artes marciais e do combate sem armas

Nos tempos primitivos, o Homem tinha pouco mais com que lutar para além dos seus punhos e pés. No entanto, e ao longo de muitas centenas de anos, as armas evoluíram de espadas a lanças, e de flechas a armas de fogo, de tal forma que se tornou possível matar cada vez mais rápido e a distâncias cada vez maiores. No mundo moderno, o Homem desenvolveu a tecnologia da morte, a tal ponto que populações inteiras estão ameaçadas de genocídio, enquanto receamos a extinção da raça humana pela ameaça das armas nucleares.

Perante a possibilidade de destruição em massa por sofisticadas armas assassinas, que vantagem possível poderá haver em passarmos três a cinco anos do nosso precioso tempo a aprender uma forma primitiva de combate a mãos nuas? Qualquer pessoa relacionada com as artes marciais deveria prestar muita atenção à questão sobre se há qualquer interesse em aprender estas técnicas, tendo como único objectivo a vitória.

 

Vive e deixa viver

Ensinar que o budo é um método de luta de rua, ou de vencer competições, é extremamente perigoso, e é, ainda pior, inútil. Tal como um corpo forte ou uma cara bonita não são reflexo de um carácter nobre, ninguém pode considerar que se tornou mestre na essência de budo apenas porque conseguiu vencer um combate ou uma competição. Uma pessoa que queira seguir o verdadeiro caminho marcial deverá terem conta o significado de bu, compreender que a essência do budo é a de aprender a conquistar-se a si próprio, em vez de se esforçar por derrotar os outros. Deverá compreender que nada é senão uma porção de Dharma, e entender porque veio a este mundo. O carácter de uma pessoa torna-se bom ou mau, dependendo da sua forma de pensar. Como tal, devemos procurar uma correcta compreensão do budo, não enquanto conjunto de técnicas que servem para derrotar ou matar outros mas, pelo contrário, enquanto uma via para nos treinarmos, para nos tornarmos mestres de nós próprios, e para vivermos e deixarmos os outros viver.


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